Tecnologia

AV1 contra HEVC: o que está em jogo na disputa que decide como os vídeos vão pesar menos

Elian Codaris10 min de leitura

Todo vídeo que chega até uma tela passou por um processo de compressão que decide, silenciosamente, quanto de internet ele vai consumir e quanta nitidez vai sobrar depois de comprimido. Esse trabalho é feito por um codec — um algoritmo de codificação e decodificação de vídeo — e, nos últimos anos, a disputa entre dois deles, o AV1 e o HEVC (também chamado de H.265), passou de discussão técnica de bastidores para uma briga que já foi parar na justiça.

Este artigo explica o que cada codec faz de diferente, por que o AV1 se tornou o favorito de gigantes como YouTube e Netflix, e por que um processo movido pela Dolby contra o Snapchat em 2026 colocou em xeque a fama do AV1 de ser “livre de royalties”.

O que um codec de vídeo realmente faz

Um vídeo bruto, sem compressão, ocupa um espaço absurdo: poucos segundos em alta resolução já somam gigabytes. Um codec existe para reduzir drasticamente esse tamanho sem destruir a qualidade percebida, eliminando informação redundante entre quadros parecidos, prevendo movimento e reorganizando dados de um jeito que o olho humano dificilmente nota a perda. Quem já organizou uma rotina de backup de arquivos grandes sabe bem o quanto o tamanho final de um vídeo pesa no espaço de armazenamento disponível.

Existem duas etapas nesse processo: a codificação, feita uma vez pelo serviço que hospeda o vídeo, e a decodificação, feita a cada vez que alguém assiste. É por isso que a compatibilidade de hardware do lado de quem assiste importa tanto quanto a eficiência de compressão do lado de quem publica — um vídeo pode estar perfeitamente comprimido e, ainda assim, travar num aparelho que não tem um decodificador dedicado para aquele formato, sobrecarregando o processador e a bateria.

Grade de quadros sequenciais de vídeo com setas de vetores de movimento sobrepostas, representando a predição usada na codificação de vídeo

HEVC (H.265): o sucessor comercial do H.264

O HEVC, ou H.265, foi desenvolvido pelo mesmo tipo de consórcio de empresas que criou o H.264, o codec mais usado do mundo até hoje. Lançado oficialmente em 2013, o HEVC entrega algo entre 25% e 50% menos bitrate que o H.264 para uma qualidade equivalente, dependendo da resolução, e por isso se tornou padrão em Blu-ray 4K, transmissões de TV e boa parte dos vídeos gravados por smartphones.

O problema do HEVC nunca foi técnico — foi comercial. Diferente do H.264, cujo licenciamento de patentes era relativamente simples, o HEVC ficou fragmentado entre múltiplos consórcios de patentes concorrentes, cada um cobrando royalties separadamente de fabricantes de hardware e, em alguns casos, de quem distribui conteúdo. Essa complexidade de licenciamento foi um dos principais motivos que levaram empresas de tecnologia a se unir em busca de uma alternativa.

Selos dourados desconectados sobre um circuito eletrônico, representando o licenciamento fragmentado de patentes do HEVC

AV1: a resposta royalty-free da indústria

Em 2015, gigantes como Google, Amazon, Netflix, Microsoft, Mozilla e mais tarde Apple formaram a Alliance for Open Media (AOMedia) justamente para criar um codec que devolvesse previsibilidade ao licenciamento. O resultado, lançado em 2018, foi o AV1: um formato projetado desde o início para ser aberto e, segundo a proposta original da aliança, livre de royalties para quem o implementa.

Em compressão pura, o AV1 leva vantagem: comparado ao H.264, chega a economizar cerca de 50% do bitrate em 4K mantendo qualidade equivalente; comparado ao HEVC, a vantagem gira entre 25% e 35% em 4K e fica mais modesta, algo entre 3% e 10%, em 1080p. A YouTube, uma das operadoras de maior volume de vídeo do planeta, já codifica a maior parte do seu catálogo em AV1, e a Netflix vem expandindo a entrega em AV1 ano a ano, com a meta declarada de ultrapassar o H.264 como formato mais usado na plataforma.

O preço dessa eficiência é o custo computacional de codificar: gerar um arquivo em AV1 com a qualidade máxima que o formato permite pode ser dezenas de vezes mais lento do que codificar o mesmo vídeo em H.264, o que levou o mercado a desenvolver codificadores otimizados, como o SVT-AV1, capazes de equilibrar velocidade e compressão para uso em produção, inclusive em transmissões ao vivo quando rodados em hardware dedicado.

Onde cada um roda: o mapa de compatibilidade em 2026

Aqui está a diferença mais prática para quem só quer saber “isso vai travar no meu aparelho”: suporte a decodificação de AV1 por hardware ainda não é universal, embora tenha crescido rápido. Boa parte desse avanço depende do desenho dos próprios chips — um tema que também aparece, por outro caminho, em arquiteturas de processador como a RISC-V, onde decisões de design de hardware moldam quais recursos um aparelho consegue acelerar nativamente.

No universo Android, aparelhos lançados a partir de 2022 — como as famílias Google Pixel 6 em diante e Samsung Galaxy S22 em diante — já trazem decodificação de AV1 por hardware. Do lado da Apple, o suporte chegou de forma mais tardia: os chips que equipam o iPhone 15 Pro em diante passaram a incluir decodificação de AV1 nativa, mas modelos de iPhone anteriores a essa geração dependem exclusivamente de HEVC. Televisores inteligentes fabricados a partir de 2023 pelas principais marcas também incorporaram suporte a AV1, assim como a maioria dos navegadores modernos — Chrome, Firefox e Edge —, ainda que o Safari historicamente tenha demorado mais para acompanhar.

Televisão inteligente exibindo um ícone de chip processador brilhante, representando a decodificação de vídeo por hardware

O HEVC, por ser mais antigo, tem uma base instalada muito maior e mais uniforme: praticamente qualquer smartphone, TV ou computador vendido na última década consegue decodificá-lo, o que continua tornando o formato relevante como opção de fallback para quem usa aparelhos mais antigos.

Essa fragmentação é o motivo pelo qual serviços de streaming grandes normalmente não escolhem “um ou outro”: eles mantêm múltiplas versões codificadas do mesmo vídeo e entregam a mais eficiente que o aparelho de quem está assistindo consegue reproduzir — uma prática chamada de escada de codificação (encoding ladder), que também exige uma conexão estável o bastante para sustentar o fluxo, algo que passou a pesar menos desde a chegada de padrões como o Wi-Fi 7 em redes domésticas mais recentes.

O processo que abalou a reputação “royalty-free” do AV1

Em março de 2026, a Dolby entrou com ações judiciais contra o Snap Inc., dona do Snapchat, alegando violação de patentes relacionadas tanto ao AV1 quanto ao HEVC. As ações foram movidas na Justiça Federal de Delaware, nos Estados Unidos, e também em dois processos separados na Justiça do Rio de Janeiro, no Brasil.

Martelo de juiz ao lado de um ícone digital de vídeo brilhante em um tribunal, representando a disputa judicial sobre patentes de codecs

As patentes citadas no processo americano têm origem na General Electric e foram adquiridas pela Dolby em 2024; segundo a empresa, elas cobrem técnicas centrais de compressão de vídeo, como predição entre planos de imagem e codificação de entropia — processos usados tanto pelo HEVC quanto, segundo a alegação, também pelo AV1.

O ponto central da disputa é conceitual: a Alliance for Open Media reuniu as empresas que ajudaram a desenvolver o AV1 e conseguiu compromissos de não cobrança de royalties entre esses membros. Só que a Dolby nunca participou do desenvolvimento do AV1 e, portanto, nunca assinou nenhum compromisso desse tipo — o que significa que, mesmo que o AV1 tenha sido projetado para ser royalty-free entre seus criadores, isso não impede terceiros que alegam deter patentes relevantes de cobrar por sua tecnologia de quem usa o formato.

É importante frisar o que essa disputa judicial representa e o que não representa: ela não prova, por si só, que o AV1 infringe as patentes citadas — isso ainda será decidido pelos tribunais. Mas o processo expôs uma fragilidade conhecida havia anos entre especialistas em propriedade intelectual: a etiqueta “royalty-free” de um codec depende de quem participou do consenso ao criá-lo, não de uma garantia legal universal contra qualquer alegação futura de patente por parte de quem ficou de fora.

O que vem depois: o AV2 já está aqui

Enquanto essa disputa em torno do AV1 corre na justiça, a Alliance for Open Media já avançou para a próxima geração: o AV2 teve sua especificação 1.0 lançada em maio de 2026, prometendo, em implementações preliminares, algo próximo a 30% menos bitrate que o AV1 para qualidade equivalente. Fabricantes de chips como Allegro DVT, Chips&Media e VeriSilicon já têm decodificadores de AV2 em desenvolvimento ou concluídos, incluindo suporte a resoluções de até 8K — mas, como todo novo codec, o AV2 ainda vai levar anos para alcançar a base instalada de hardware que HEVC e mesmo o AV1 já conquistaram.

Estrutura de dados dispersa se organizando em uma forma cristalina mais densa e eficiente, representando o avanço para o codec AV2

Vale mencionar que a Sisvel, um dos consórcios de patentes que já licencia tecnologia relacionada ao HEVC e ao AV1, anunciou planos de formar um pool de patentes também para o AV2 — um sinal de que a mesma tensão entre “formato aberto” e “patentes de terceiros” deve acompanhar a nova geração de codecs.

O que isso significa na prática para quem só quer assistir ou publicar vídeo

Para quem consome conteúdo, a recomendação prática não muda: a escolha do codec normalmente acontece de forma automática, decidida pela combinação entre o serviço de streaming e o hardware do aparelho, sem exigir nenhuma configuração manual. Vale saber, no entanto, que um aparelho mais antigo sem decodificação de AV1 por hardware pode aquecer mais e gastar mais bateria ao assistir vídeos nesse formato, porque o processador precisa decodificar por software, sem a aceleração dedicada do chip.

Para quem produz ou distribui vídeo profissionalmente, a disputa judicial em torno do AV1 é motivo real de atenção: empresas que dependiam da suposta segurança jurídica do rótulo “royalty-free” agora avaliam com mais cautela os riscos de licenciamento, o que pode, a médio prazo, afetar a velocidade de adoção do formato fora dos grandes players que ajudaram a criá-lo.

Perguntas frequentes

AV1 é realmente melhor que HEVC?
Em compressão, sim, geralmente entrega arquivos menores para a mesma qualidade, principalmente em 4K. Mas HEVC tem suporte de hardware mais amplo e uniforme, o que ainda pesa a favor dele em aparelhos mais antigos.

Isso significa que quem usa AV1 pode ser processado?
O processo movido pela Dolby mira o Snap especificamente, com base em patentes específicas. Não existe, até o momento, uma decisão judicial que declare o AV1 como um todo infrator de patentes — a disputa ainda está em curso.

Vale a pena configurar manualmente um app para usar HEVC em vez de AV1, ou vice-versa?
Normalmente não é necessário nem possível: a maioria dos serviços de streaming escolhe automaticamente o melhor formato compatível com o aparelho de quem assiste.

AV2 já substitui o AV1?
Ainda não. A especificação foi lançada em 2026, mas hardware com suporte a AV2 é recente e vai levar anos para se popularizar, seguindo o mesmo processo lento que o próprio AV1 enfrentou.

Por que streamings mantêm vários codecs ao mesmo tempo em vez de escolher só um?
Porque a base de aparelhos que as pessoas usam para assistir é muito variada. Manter uma “escada” de versões codificadas em formatos diferentes garante que o vídeo toque bem em qualquer dispositivo, do mais novo ao mais antigo.

Para lembrar

A disputa entre AV1 e HEVC nunca foi só sobre qual algoritmo comprime melhor — sempre envolveu quem controla o licenciamento e quanto isso custa para quem implementa a tecnologia. O processo movido pela Dolby em 2026 não muda a eficiência técnica de nenhum dos dois formatos, mas é um lembrete de que, no mundo dos codecs de vídeo, a etiqueta “livre de royalties” costuma vir com letras miúdas que só aparecem quando alguém de fora do consenso original decide cobrar a conta.

Fontes e referências